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“Entre raposas e baleias”

Em homenagem ao dia das crianças, minha palavra nesta semana é para todos nós,  pequenos meninos e meninas:pinocchio-1525960

     Aquela não era uma obra qualquer. O velho carpinteiro percebeu isto, quando deu as últimas pinceladas naqueles grandes e curiosos olhos azuis – imaginando que aquele boneco poderia ganhar vida e, ser diferente de todos os carrinhos, piões, cavalinhos e carrosséis que já havia feito. Por isso, de certo modo, não foi uma surpresa ver que uma linda “fada azul” havia dado vida à sua criação mais especial.
E foi como um filho que passou a tratar aquele boneco com coração de madeira, ensinando o bom e o certo. Gepeto queria que ele fosse um menino alegre e brincalhão, mas também que fosse inteligente (não manipulável), que estudasse – para isso todo sacrifício valeria a pena; até mesmo confiar de que ele poderia sair sozinho, e ainda retornar para a casa.
Pinóquio tinha outros planos, a vida era linda e imensa demais, e o mundo maior ainda. Havia tanto para ver, tanto para conhecer – sorvetes, balas, bombons, circos e brincadeiras – cada aventura parecia tão intensa, que não importava o quanto sua consciência lhe perturbasse como um grilo tagarela; sentia que precisava ir mais adiante e experimentar cada vez mais coisas, ou a mesma coisa várias vezes .

    Fascinado, não percebeu que havia três coisas que estavam irremediavelmente associadas a todas as aventuras que ainda queria ter na vida:

    A primeira delas; era que não poderia conhecer o mundo daquela forma sem a mal intencionada ajuda de lobos e raposas, dispostos a lhe levarem em parques divertidos, para logo em seguida vendê-lo e transformá-lo de um menino amado, em uma simples marionete de um teatro de bonecos;

    A segunda; é que todos os caminhos a estes lugares só são acessíveis por meio de mentiras – mais e mais mentiras: grandes e pequenas; mentiras sem querer, mentiras inofensivas, mentiras necessárias, mentiras desnecessárias – mentiras, mentiras – tantas e cada vez mais a ponto de deformar seu lindo rosto, mudar seu semblante, deixá-lo mais cínico, mais descarado – a ponto de não ligar se as pessoas já percebem que há algo errado, que o nariz está crescendo – tantas mentiras que o tornem tão burro a ponto de acreditar que não conseguirá mais viver sem elas.

    A terceira; é que conhecer o mundo, e envolver-se nas suas aventuras, importava em estar longe de casa, distante de seu velho pai, que o criara com carinho e, o amava com tantas forças que não mais suportou aguardar o pródigo filho retornar para casa; saiu como um pastor a procura de sua ovelha, embrenhando-se mundo adentro para reencontrar seu menino.

    Que peninha que esse pequeno “Jonas” fujão, só descobriu o que de fato era importante, quando já estava no ventre da Baleia. Foi de lá, no meio da escuridão e da desilusão, entre resíduos de comida e líquidos gástricos que percebeu que sempre quis ser como seu pai – ter um coração de carne. Ao conversar com a “fada azul” reconheceu que havia feito tudo errado, que agiu como se estar em casa com seu pai não fosse o melhor sentimento; se achou tão “safo” que considerou o conhecimento de seu pai ultrapassado e fora de moda. Felizmente, arrependeu-se, reencontrou seu pai, pediu-lhe perdão, voltou para casa nos braços de Gepeto. E, o mais importante finalmente sabia o que queria: transformar-se num menino de verdade, pois assim se sentiria realmente filho de Gepeto, e naquela mesma noite a “fada azul” o transformou – Ele podia continuar sendo ele mesmo e ainda assim sentir que era uma nova pessoa.
Se alguém tem dificuldade em identificar-se com Pinóquio, eu não! Há mais na história desse boneco do que simples mentirinhas de criança – sua história fala de ilusão e desilusão, fascínio e solidão; ingratidão e perdão e ainda de como todos nos sentimos (ou deveríamos nos sentir) quando fracassamos, quando achamos que poderíamos ser melhores; mais gratos com aqueles que nos amam. Que a descoberta do mundo para nós e de cada um dos seus encantos não pode valer mais a pena, do que fazer o que é certo.
E, se alguém se sente desconfortável em admitir que possui igual dificuldade em se parecer com o pai, apesar de todo esforço; permita-me ser este solitário exemplo, pelo menos até que você se una a mim.

    Agora, já que me faço um exemplo, preciso admitir pra você que não é fácil ser sempre um bom menino. Não é fácil fazer sempre o que é certo. É claro que bons meninos não se orgulham de admitir esta fraqueza. Mas sei que vale a pena não apenas admitir minhas fraquezas, como também tentar superar cada uma delas.

   Sei que se unirão a mim, todos aqueles que conseguem lembrar do inesquecível amor nos olhos do nosso pai, e de como vale mesmo a pena o esforço de agradá-lo. A recompensa? É claro; é voltar pra casa, é estar em sua casa!

   Mas, de que grande esforço em agradá-lo me refiro? Um bom começo é evitar nos perdermos em teias e redes de mentira; evitar a companhia de lobos e raposas, e descobrir que não precisamos conhecer e desfrutar de todas as aventuras e prazeres deste mundo e que importam em sofrimento para nós e para aqueles que amamos. Precisamos sim, estar atentos àquela “vozinha interior”; que nos avisa tagarelantemente: “por ai não, Pinóquio, volta! “

   Por isso, quando estiver pronto para admitir que realmente se sente também como às vezes me sinto; entre mentiras e desilusões; “raposas e baleias”; mesmo tendo feito tudo errado e de ter sido tão ingrato com aquele que mais te ama, ainda assim há tempo de conversar com o Espírito Santo, confessar novos e velhos erros e acreditar que Ele está disposto a ouvir a tua confissão, e a te dar o mesmo coração do nosso bom e velho “Gepeto”.

Pastor Márcio Moraes

Igreja de Cristo no Brasil / São Luís-MA