A segunda chance

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“E Eliseu lhe disse: Toma um arco e flechas. E ele tomou um arco e flechas. Então Eliseu disse ao rei de Israel: Põe a mão sobre 5129221_origo arco. E ele o fez. Eliseu pôs as suas mãos sobre as do rei, e disse: Abre a janela para o oriente. E ele a abriu. Então disse Eliseu: Atira. E ele atirou. Prosseguiu Eliseu: A flecha do livramento do Senhor é a flecha do livramento contra os sírios”
II Reis Cap. 13: 15-17 b
O trecho acima é parte da narrativa bíblica do encontro entre dois homens (o rei Jeoás e Eliseu, o profeta) que ocupavam importantes posições em Israel, mas com trajetórias de vida completamente opostas. Eliseu foi escolhido por Deus e chamado para o ministério profético através de Elias; na mesma época em que Jeú, avô de Jeoás, foi ungido rei, por escolha divina. Jeoás trilhou o caminho de seu pai, Jeoacaz, o qual não serviu a Deus com inteireza de coração, desviando-se das orientações de Deus e guiando a nação para longe dos propósitos de Dele. Eliseu, dedicou sua vida  a ensinar ao povo os preceitos do Senhor. Através de suas mãos, foram realizados milagres espantosos e de sua boca foram anunciadas profecias importantes que impactaram o destino da nação e a sua sobrevivência.  A cena agora mostra o encontro de um rei corrompido, que vê o seu exército prestes a ser dizimado pelos Sírios, com uma força de guerra superior e o homem de Deus que está acometido de uma doença terminal.
Existem pelo menos três coisas que eu aprendo com esta narrativa. A primeira, é que apesar de toda a sua culpa e de seu coração corrompido, O rei desce do seu palácio e vai até a casa do profeta. Ele reconhece a distância moral entre os dois mas precisa ver o homem de Deus neste momento de crise. Ao ver o estado terminal de Eliseu, ele usa  a mesma expressão de perplexidade que o próprio Eliseu proferiu ao ver Elias, seu mestre, ser arrebatado: “Carro de Israel e seus cavaleiros !” Com esta expressão, ainda que movido pela crise, o rei reconhece que a coisa mais importante para a defesa nacional é ter a orientação Divina aqui personificada por Eliseu como guardião da lei e emissário de Deus. O rei Jeoás chama o profeta de pai em sinal de respeito e expressa a sua preocupação com a nação ao ver que o profeta está prestes a deixá-los num dos piores momentos pelos quais a nação passou. Ao responder ao rei com uma proposta de ação, o profeta personifica uma resposta misericordiosa da parte do Senhor; ele é o canal de Deus para salvar o rei e toda uma nação a despeito do mesmo ter abandonado a aliança com o Senhor.  Este ato profético de tomar o arco, simboliza o incentivo de Deus para enfrentar a dura realidade. Deus estava dando uma nova chance ao rei e ao povo. A segunda coisa que me chama a atenção é a serenidade do homem de Deus. Deus havia curado o General Naamã da terrível doença da lepra (em uma época na qual, ter lepra, era uma sentença de morte) através do ministério de Eliseu e esta foi uma das coisas sobrenaturais pois o dobro de milagres aconteceram em relação ao ministério de seu antecessor, Elias. Parece contraditório que um homem com uma vida inteira de experiências espetaculares com Deus, tenha o seu fim decretado por uma terrível enfermidade. Certamente Eliseu entendia que todas as coisas maravilhosas que aconteceram em seu ministério foram realizadas pelo poder de Deus e pelo seu propósito. Ele entendia que, mesmo sendo o canal de Deus para o povo israelita ele continuava sendo um frágil ser humano. Eliseu não se lamenta, não questiona a Deus, ele simplesmente aceita com resignação o seu fim. Sabe que o Deus das maravilhas continuará operando e aconteça o que acontecer, ele continua sendo seu filho, seu escolhido. Esta realidade, de um Deus que manifesta seus atos através dos que o adoram é tão marcante, que mesmo agora, em seus últimos momentos, ainda há tempo para realizar um último ato profético em favor de toda a nação, Eliseu não se preocupa consigo, ele quer abençoar o povo com livramento ainda que uma última vez.
A terceira coisa que aprendo com este texto, é que quando Deus nos dá uma segunda chance, precisamos nos apoderar dela com convicção. O rei cumpre o ato profético com a ajuda do profeta, mas ele não é perseverante: quando precisa prosseguir por conta própria ele atira de forma tímida para o alvo que está plenamente ao seu alcance.  Ele feriu a terra três vezes (verso 18) e parou. Ao recebermos uma direção de Deus precisamos ser insistentes, determinados. Muitas vezes, grandes transformações começam a acontecer em nosso interior mas, por nossa falta de perseverança, não avançamos em nossa fé, ficamos mirrados e defasados espiritualmente. A questão no contexto de Jeoás era de sobrevivência do povo, era uma situação de crise e nenhuma oportunidade poderia ser negligenciada.
Precisamos entender que o Senhor é um Deus de recomeços. Ele providencia oportunidades de transformação, renovação e restauração todos os dias. As suas misericórdias se renovam a cada manhã. O problema é que nós desanimamos muito facilmente e desistimos do processo. Os profissionais da área médica costumam dizer que o maior problema de qualquer tratamento é a interrupção ou a indisciplina daqueles que precisam se submeter ao mesmo. Que eu e você tenhamos perseverança para continuar na direção que Deus está indicando, mesmo quando suas instruções não façam sentido para nossa lógica humana.

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