Uma questão de simplicidade

ovelhas_vida_pastor1

A mensagem da cruz,

Uma questão de simplicidade

 

Em um reino não tão distante; um certo nobre muito  rico e próspero realizou uma grande festa, e quando já estava bastante embriagado, empolgou-se com os elogios que recebia de seus convidados fanfarrões e bajuladores e começou a falar mal do rei,  passando a desonra-lo diante da corte.

Disse que o rei tinha ideias ultrapassadas, e que por isso, não precisava mais viver sob seu domínio, que já era rico e respeitado o suficiente para viver se rastejando aos pés daquele rei como um cão. Ao final da festa, já encharcado de vinho e arrogância, acrescentou que não seria mais um moleque do rei, pois tinha riquezas, servos e terras suficientes para ser ele mesmo seu próprio rei.

No dia seguinte, após recuperar-se da ressaca, a esposa daquele nobre contou detalhadamente o que acontecera e tudo que ele dissera. E foi nesse momento que caiu à ficha – o nobre falador ficou desesperado. Era inevitável a essa altura que o rei não já soubesse de seus comentários. Tinha que fazer algo e rápido, era uma questão de tempo, até que o rei tomasse daquele nobre todos os seus bens, e o deixasse na mais completa miséria ou ainda pior que inventasse um meio de enforcá-lo, juntamente com sua família.

Primeiramente, pensou em negar o que tinha falado, mas foram tantas testemunhas que não poderia esconder o que disse. Ponderou se o rei aceitaria sua versão dos fatos; claro mudaria uma palavrinha aqui e outra ali; e com jeito, o que dissera não pareceria tão devastador; mas o nobre novamente mudou de ideia; o rei era esperto, não aceitaria costuras naquela conversa – enfim não se sentia inteligentemente capaz de vencer tal dilema com palavras. Convocou e pagou bem a homens habilidosos em táticas e estratégias para lhe ajudar naquele impasse; ouviu um por um – mas a fama da severidade do rei, transformava cada ideia ouvida em um remendo pior que a costura.

Por último optou pela ideia que lhe pareceu ser a mais viável, gastou metade de sua fortuna preparando um grande banquete para o rei. Nada poderia ser poupado: toneladas de flores; vinhos; frutas, cozidos e assados; talheres de prata, apresentações circenses, e presentes, muitos presentes: cavalos, arcas inteiras com joias e títulos de propriedade devolvendo ao rei muitas de suas terras. Tudo pronto, para reconquistar o coração de seu monarca.

Com sagacidade mandou ao palácio, mensageiros oficiais convidar toda a família real para o banquete, e pagou outros “fofoqueiros não oficiais” para espalharem em toda corte e nos corredores do palácio de que toda a sua riqueza seria entregue ao rei naquele dia. Ufa! Finalmente dormiu mais sossegado na noite que antecedeu ao banquete e, como não era de ferro, ainda vangloriou-se um pouquinho de sua inteligência, comentando com a esposa que ao ver os presentes, o rei não apenas o perdoaria, como ainda o homenagearia na frente dos demais nobres. E, pensando assim; afinal, não fora tão ruim tudo que aconteceu, pois acabaria provando mesmo, a todos; de que o que falara era verdade – que era rico e próspero e, que até mesmo o rei iria reconhecer isto naquele dia. Tudo não passaria de um válido investimento.

No grande dia da festa; de todo o reino chegavam nobres curiosos e ansiosos pela reação do rei – as caravanas não pouparam gastos: dezenas de criados, lindas carruagens, vestidos extravagantes, joias exuberantes – todos sem exceção queriam estar à altura do banquete ou melhor do espetáculo. O dia passou rapidamente pela ansiedade de todos; muita comida e bebida já fartavam os convidados e até então ninguém avistou a caravana real. O nobre falador já estava em pânico; havia gastado muito e se o rei não comparecesse?

Já era noite e, não restavam tantos fios de esperança que sua majestade aparecesse – até que adentrou um homem diferente na sala do banquete – seria um emissário do rei? Alguém enviado para desculpar-se por sua majestade? Esse pensamento logo fugiu – não poderia ser; suas vestes não eram palacianas, embora seus modos não negassem sua realeza. À medida que se aproximava da grande mesa, alguns poucos o reconheceram e se ajoelharam; outros teimaram em não acreditar e resistiram ao impulso de se curvarem – Para o nobre foi um susto, sua majestade, estava ali na sua frente, vestido como um camponês, sem vestes, sem criados, sem a numerosa guarda real – como interpretar aquilo? O que dizer? Ficou tão extasiado e novamente bêbado, não se curvou – aliás, concedeu a si mesmo o direito de duvidar que fosse mesmo o rei. Ponderou: melhor acreditar no óbvio – e é óbvio que este não pode ser o rei, trata-se de um impostor, e tal afronta não pode ser desculpada – passada a dúvida inicial, começou a ridicularizar seu convidado, a achincalhá-lo. Mas, isto não foi o suficiente, estava tão contrariado pela ausência do verdadeiro rei, que viu a oportunidade perfeita de agradá-lo – mandou açoitar aquele impostor que se fazia passar por ele – foi mais adiante, incitou seus convidados, tomados de bebida a maltratá-lo, a agredi-lo até ao ponto de quase matá-lo. Os gritos e açoites só foram interrompidos quando a voz fraca e embargada daquele convidado atravessou seus corações, dizendo:

“No fundo todos vocês sabiam que eu era o rei. E, só me trataram desta forma, por que minha aparência ofende a vaidade e a arrogância de cada um. Saibam que só vim vestido assim para encontrar meus verdadeiros amigos e não para ser bajulado. Vesti essas roupas, para mostrar que eu posso! Todo o reino me pertence, e eu posso quando quiser me despojar de tudo. Entendam que riquezas, presentes, elogios ou homenagens não me compram. Nem a mim, nem ao meu perdão. Aliás, para obtê-lo, bastava pedir com humildade e sincero arrependimento!”.

Muitos têm esta relação com a cruz, sentem-se humilhados com a ideia de um Deus que se despoja de riquezas e de sua glória para perdoar as nossas ofensas. É claro que a cruz de Cristo, constrange os vaidosos e os arrogantes. Sentem desconforto não apenas com a morte do filho de Deus no madeiro, mas pela forma como ele pode ser reconhecido por pessoas simples e humildes; mesmo aquelas sem grandes conhecimentos e que tiveram poucas oportunidades na vida.

Já aqueles que acham que Deus só pode ser alcançado por grandes planos, métodos e estratégias, através de grandes doações ou sacrifícios, tornam-se alvos conscientes de oportunistas e charlatães; pois na embriaguez de seu orgulho preferem barganhar bênçãos por ofertas – por isso ainda estão longe de entender a mensagem da cruz.

É bom saber que algumas expectativas em relação a Deus são frustradas por sua simplicidade. A vida e a morte de Cristo provam o que estou dizendo, aqueles que pretendem se aproximar de Deus, precisam antes entender um pouco do seu coração. Ele não requer coisas grandes, nem feitos mirabolantes ou complicados, pois como disse o rei de nossa história – coisas simples como humildade, sinceridade e arrependimento para Ele, não apenas são mais importantes, na verdade fazem toda diferença.

 

Pastor Marcio Moraes

Igreja de Cristo em São Luís (MA)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.