O cristão e a universidade: Um olhar prático sobre o academicismo

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Tenho ficado muito feliz com a nova realidade do Ensino Superior em nosso país e, apesar das críticas quanto ao sistema de cotas (assunto polêmico, exigível de tanto debate, que no momento, pretendo evitar), não tenho dúvidas que ao seu modo contribuiu muito para a democratização desse espaço acadêmico. Não apenas, jovens, mas também muitas pessoas de meia idade retornam ou encontram pela primeira vez seu lugar nesse universo do saber, na multiplicação quase cupinizada de faculdades particulares de ensino presencial ou à distância, improvisadas muitas vezes, em estruturas cada vez mais simples (não me refiro às clandestinas, obviamente); mas que proporcionalmente merecem a dignidade da diplomação a exemplo do que acontece também em países de primeiro mundo.

Dessa óptica e, sem controverter outras discussões, como docente, nunca me custou ignorar um mínimo de afrouxamento do rigor ao ingresso de pessoas mais maduras na universidade, ainda mais que tal correção histórica, pode ser aprumada na qualificação do ensino em sala de aula com um professor mais comprometido, e mais capaz de adequar os signos do conhecimento, e evitar o cientificismo exagerado, ou se não; cadencia-lo gradativamente, a fim de fazê-lo merecido por pais e mães de famílias, que às vezes diferentemente dos jovens, já nem buscam mais uma oportunidade profissional, antes têm na formação universitária uma alavanca social e pedagógica para a elevação de sua autoestima, ou mesmo a simples realização de um sonho pessoal; hibernado, normalmente; por desfavorecimento financeiro. Sim, sem dúvida, no saber há uma coluna de fogo e, uma nuvem que pode iluminar e abrigar todas as mentes desejosas de aprender e falar a gratificante linguagem do saber acadêmico.

Mencionadas essas rarefeitas considerações, passo mormente a dedicar uma palavra ao cristão universitário; grupo, ainda majoritariamente formado de jovens e, para os quais; um curso superior é muitas vezes, apenas uma projeção dos desejos dos pais, fato que embora corriqueiro, nem sempre é circunstância capaz de reduzir a oportunidade de crescimento e de ampliação da visão de mundo; uma etapa da vida com significativos desdobramentos financeiros, sociais e de sucesso pessoal em uma carreira, vocacionada ou motivada por conveniência inevitável.

Pessoalmente, penso ser um dos muitos que podem servir de exemplo. Desde os meus dezoito anos passei a ser o que chamavam de “rato de universidade”, cursei três graduações seculares, duas teológicas, além das pós-graduações em diferentes áreas e, como professor universitário sempre vivi esse ambiente acadêmico com fascinação. Mesmo assim, das experiências que aprendi; aquelas que pretendo relacionar; são mais pessoais; que puramente científicas. Atrevo-me pretensiosamente, chamá-las de dicas para o cristão universitário:

Primeira Dica: Você! Não se envergonhe de se apresentar como cristão!

Houve um tempo em que afirmar em uma sala de aula na universidade que era evangélico significava imediato estereótipo de fanatismo. O pior é que o preconceito era mútuo, lembro que na minha época, teve até um pastor que me aconselhou a não entrar na universidade por que podia me perder naquele mundo de ideias ateístas. Do outro lado, as pessoas achavam que ter um “crente” (como era mais usualmente chamados os evangélicos) por perto na sala de aula, era certeza de chateação; e que o “crentinho”, ou “o pastor” iria ficar pregando pra que todos se convertessem a qualquer custo.

Hoje, felizmente, muito dessa imagem mudou. Na verdade, até perdeu alguns filtros religiosos e éticos, virou moda, tribo, “viber”; muito provavelmente, tenha sofrido a influência da americanização midiática e de sua germinação sincrética favorecida pela cultura religiosa brasileira, acrescida fenomenologicamente das muitas conexões da interação globalizada promovida pela tecnologia de “softs” e redes de relacionamentos; ao ponto do termo “gospel” viralizar um novo conceito de mercado explorado por cristãos e não cristãos.

No espaço acadêmico, o antigo sentido de “ser crente” e o atual de “ser evangélico”, obviamente, evoluiu mais lentamente. Mas, mesmo assim, graças a Deus, a imagem do religioso protestante na sala de aula e no círculo acadêmico, e de estudantes assumidamente cristãos foi “desalienigenizado”, acentue-se; em grande parte, pelo crescimento proporcional das muitas vertentes protestantes: igrejas históricas, neopentecostais, e até mesmo os desigrejados (ou sem igrejas) que simpatizam com a fé evangélica, por virem de famílias evangélicas, por que já participaram de uma comunidade religiosa, ou simplesmente por que acompanharam algum tipo de movimento gospel (shows, grupos e etc.).

Do que acima se resume é que, atualmente quem não é evangélico, tem pelo menos um amigo ou um parente em sua família que ajudam a provar que o cristão é uma pessoa normal que professa uma fé saudável e de boas convicções éticas. Desta forma, assumir de imediato que é cristão; acredite, facilitará muito as relações com outros colegas – reforçará decisões e suas negativas diante de algumas propostas. Não precisa “chegar chegando”, você pode declarar a sua fé numa oportunidade clara e razoável. Só não demore muito, a demora pode estimular uma indefinição em seu comportamento.

Outra coisa importante é a autoestima. Se puder, deixe a sua bem pra cima. Não se sinta inferiorizado, mesmo que seu conhecimento ou sua preparação no ensino médio, não tenha sido uma das melhores. Você pode estudar; se preparar, e tornar-se um bom aluno. Lembre-se, autoconfiança (e não arrogância) é uma boa ferramenta para futuras situações como profissional e como cristão. Agora, enquanto não se sentir suficientemente seguro pra falar, mantenha a boquinha fechada. Evite falar demais, pessoas inteligentes geralmente optam por frases curtas e precisas. Evite falar demais nas primeiras aulas! Você não precisa provar nada pra ninguém. Suas palavras precisam ser aguardadas como a cereja do bolo! Seja um estrategista, sempre que iniciamos contato com um novo grupo, devemos gastar um tempo no reconhecimento e, na observação. Ouça os outros primeiros – estude os professores, os colegas, os alunos faladores etc. Guarde-se para o momento certo. Você é especial! Sinta-se assim, pessoas especiais não tagarelam – suas falas são aguardadas, por que são raras e coerentes. Lembre-se, mesmo o sol só é visível durante o dia!

Segunda Dica: Os professores

Acostume-se com uma coisa: “existe todo tipo de professor” e você precisa passar por todos. Existe o amigão, o ético, o gente fina, o exemplo, o motivador, o preguiçoso, o desinformado, o despreparado, “o caxias”, o frustrado e etc. A cada período você vai conviver com eles, não determine sua rotina de estudo e desenvolvimento profissional baseado no perfil de seu professor. Mesmo assim, dependendo do seu curso, as ideias e conceitos podem ser ateístas ou deístas (crença em um ser superior, mas não na revelação bíblica). Professores ateus, normalmente são hábeis no discurso, (sobretudo nas Disciplinas de Filosofia, História, Sociologia e nas Ciências Exatas e Naturais). Eles têm do seu lado a autoridade do magistério, a reverência da turma e, alguns se “acham os tais”. Seu primeiro desafio começa aqui. Alguns são instigadores, provocam discussões, outros até mal intencionados, passam textos para fichamento na pretensão de confrontar a fé, ou a concepção de comportamento moral da religião. Alguns professores não gostam de ser inferiorizados, por isso não importa o quão superior seja o seu argumento; fale com humildade, mas sem transparecer insegurança ou falta de convicção. Não encare nenhum professor como um rival, mas como alguém que pode ser estimulado a entender seu ponto de vista, sem necessariamente render-se a ele. Pense que você pode ser a única oportunidade que ele pode ter de ouvir o evangelho de Jesus de forma franca e sem excessos religiosos.

Terceira Dica: As aulas

A intrepidez em sala de aula é extremamente louvável. Confrontos com colegas e professores, algumas vezes são inevitáveis para um cristão convicto. Porém, a discussão mais acalorada deve ser evitada sempre que possível. Abordagens constantes ou diárias farão de você um chato. Todo discurso repetitivo por melhor elaborado que seja torna-se maçante e perde a força retórica. Queremos evitar aqui, a classe se entreolhando sempre que você levantar o seu braço para opinar. Por isso, é preciso saber a hora certa de falar, espere, respire – articule bem seu comentário primeiramente em sua cabeça, e só quando tudo estiver bem arrumadinho lá dentro, com todos os pontos que você desejar expor organizados; ai sim, você poderá levantar o braço. Não fale por impulso ou por emoção, normalmente quando fazemos isto, temos que improvisar, e as palavras não acompanham o que a gente pensava que queria dizer. Você não precisa correr esse risco, se pensar antes de falar! Não é proibido o uso de papel e caneta, se for o caso, anote e enumere no papel suas considerações antes de abrir a boquinha.

Quarta Dica – Os colegas

Se houver um grupo evangélico ou uma Aliança Bíblica Universitária em sua Faculdade é interessante conhecer e participar. Cuidado apenas para não segregar, se você andar somente com cristãos como em bandos, vai parecer que é apenas participante de outra tribo urbana. Acredite; seus argumentos em sala de aula serão melhores aceitos, se você for visto como alguém comum e, não como um fanático religioso. Se você tiver bons amigos fora de sala de aula, terá também bons aliados dentro dela. Misture com responsabilidade o máximo possível suas amizades entre cristão e não cristãos; apresente-os uns aos outros, envolva-os. A primeira vantagem desse tipo de atitude é que você teria reforço espiritual quando precisar, opiniões cristãs a favor e etc. A segunda vantagem é que evitará participar de dois grupos distintos, e não precisará estar dividido nem sujeito as oscilações naturais de conviver com estes dois dos tipos de companhia.

Quinta Dica – As provas, trabalhos e desempenho

Se for estudioso e ao mesmo tempo solicito e atencioso com seus colegas, suas chances de ter algum tipo de influência sobre eles aumentará incrivelmente. Esforce-se para estar pelo menos, um passo a frente nos estudos em uma ou outra disciplina e, quando conseguir isto, seja humilde e solidário, pronto a ajudar seus colegas nos trabalhos e antes das provas. Se há duas coisas que causam uma antipatia coletiva imediata é um colega metido a sabichão ou um colega de turma que só olha pra si, e pra suas notas – evite qualquer uma dessas famas. Não estou dizendo que você precisa ser o melhor da turma, mas, por favor, não seja o pior. Um estudante desinteressado; relapso, consegue bem pouco respeito da turma.

Sexta Dica – As Festinhas e Calouradas

Toda universidade tem ao longo do curso, dezenas de calouradas por ano, festas de arrecadação pra formatura e outros eventos da turma etc. Jamais fui a uma, entendo que não há necessidade de participar, por mais bem intencionada que seja ou por mais que isto ajude em sua “socialização”, e por mais que alguém justifique que isto o ajudará a se entrosar para ganhar almas. Uma lógica assim é perigosa, e pouco produtiva. Ser confundido como alguém que não está sujeito a limites sociais vai dificultar muito mais o seu trabalho de evangelização do que facilitá-lo. Acredite, não vale à pena esse tipo de mistura, mesmo que alguém diga que Jesus comia e bebia com pessoas de má fama, o contexto era bem diferente de uma calourada ou uma festa temática ou de um carnaval fora de época ou qualquer coisa assim.

Se você se recorda das primeiras dicas, sabe que nunca orientei que você se afastasse ou se segregasse dos demais colegas. Mas, agora, sem ser paradoxal, estou realmente dizendo, que uma festa universitária em vários aspectos; é algo ruim; vou mencionar pelo menos dois:

Primeiro – Normalmente numa calourada ou festa desse tipo, sempre tem bebida alcoólica, mesmo que você não beba (o que já é um bom começo), outras pessoas bebem e a bebida desinibe as pessoas – tornam elas mais acessíveis e vulneráveis. Por melhor que você se comporte, correrá desnecessariamente o risco de viver situações de tentação, com um rapaz ou com uma moça que não está sob os mesmos limites de sua fé. Lembre-se, que você é de carne e não de ferro.

SegundoVocê não faz ideia o quanto situações assim atrasam um trabalho contínuo de evangelização – as mentes e expectativas das pessoas em relação a você ficarão extremamente confusas. Mesmo aquele colega que insistiu para que você participasse daquela festa, no íntimo ficará decepcionado. Por que, toda a alma tem a necessidade de ser salva, e a dele, mesmo inconscientemente criou a esperança de que você ajudaria nisso.

Além das calouradas, se você de fato, tiver amigos na universidade, surgirão outros convites para algumas festas: casamentos, aniversários, bailes de formatura e etc. Você não deve desgastar a sua imagem aceitando a todos eles, é de bom alvitre ser seletivo. Então transforme o convite escolhido numa oportunidade de pregar sem palavras. Compre o presente que quiser e junto dele, não tem problema de entregar outro interessante: um cd ou DVD evangélico, uma bíblia, um bom livro evangélico. Não é brega, nem inconveniente dar presente evangélico não! Pelo contrário, além da possibilidade de evangelização, você estaria sinalizando quem é. Cuidado apenas, para não subentender que é um religioso e não um cristão, o que se diferencia pelo excesso de atitudes, de gentilezas e de proximidades com seus colegas de turma. Isto quer dizer, que dar um presente evangélico não se confunde com uma regra, mas uma sugestão; esteja apto para fazer adaptações contextuais para essa dica. No geral, confie no que digo; as pessoas não estranharão se você evangélico der um presente evangélico.

Ao chegar, sente-se e tome um refrigerante ou suco. E, avalie bem, se vai ingerir bebida alcoólica, mesmo um “coquetelzinho” ou uma taça de vinho. Algumas pessoas têm a tendência de oferecer esse tipo de bebida assim que chegamos numa festa, por que imaginam que são bebidas “permitidas” aos evangélicos. Mas, muitas destas pessoas, estão esperando também a chance de “jogar” isto na sua cara ou de levantar questionamentos a respeito, evite situações assim. Mesmo o cristão que se permite às vezes, a ingestão moderada de uma taça de vinho; por exemplo, deve evitar a aparência do mal, deve saber escolher o ambiente, e perceber quem está a sua volta, e se a longo ou médio prazo, tal exposição não será mais prejudicial do que socializadora.

Sétima Dica – A Abordagem Direta

Não tenho dúvidas de que sua postura nas aulas, os papos, os testemunhos são formas indiscriminadas de semear a palavra de Deus, mesmo sem uma pregação direta e verbalizada. Não vejo, a invisibilidade como uma opção para o cristão genuíno, que entende a importância de no meio acadêmico; desmistificar preconceitos religiosos e assumir sua identidade de discípulo de Cristo.

Além disso, se houver no seu coração o desejo de ir mais além, e ganhar almas para o reino de Deus na universidade; deve se preparar para adotar também uma abordagem mais objetiva, iniciando um programa de evangelismo pessoal. A partir dessa decisão, pense em alguns alvos, ore por alguns amigos, e ainda dependendo de sua intimidade com ele, e de sua própria timidez – decida o tempo e a oportunidade de cada estratégia: uma conversa, um testemunho, um livro ou convite para uma reunião ou culto de sua igreja.

Seguidas, ao seu modo, estas dicas, não se sinta frustrado se houver poucas conversões por seu intermédio, acredite que sua postura, seu jeito de ser e suas palavras; ficarão marcadas nas mentes de colegas e professores e, um dia longe de seus olhos e ciência, o Espírito Santo ceifará o que você semeou.

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